Feb
1
2011

RANXEROX

Último domingo foi dia das histórias em quadrinhos, e pra comemorar a data gastei um dinheiro e comprei um gibi italiano bem antigo, que a editora Conrad lançou no Brasil há mais ou menos 2 meses.  A história é a do personagem Ranxerox, idealizado por Stefano Tamburini, em 1977, na Itália em meio ao caos do movimento estudantil, enquanto literalmente o coro comia entre estudantes e governo italiano. Foi num ônibus, depois de mais uma batalha contra a polícia, que Tamburini viu um grupo de estudantes chutarem uma fotocopiadora e pensou “poderia transformar aquela velha maquina de Xerox em algo mais bélico”. Talvez transformasse em um robô construído por um algum estudante nerd de bioeletrônica.  

 

A história de Ranxerox foi primeiramente publicada na revista Cannibale, com o nome original Rank Xerox sendo preto e branco e muito mais politizado, ligado ao movimento de 1977. Em 1980 foi publicada pela revista mais ativa de contracultura da Itália, a Frigidaire que tinha como objetivo cumprir uma das tarefas do movimento: rir de qualquer autoridade. Em colaboração com outros desenhistas-roteiristas e ativistas como Scozzari, Pazienza e Tanino Liberatore, a Frigidaire é um marco dos anos 80 no que diz respeito à História em quadrinhos e contra cultura tanto pela originalidade, quanto pela importância no movimento estudantil, tornando a Itália um expoente em quadrinhos nos anos 80. Como o próprio nome diz, ela era como uma geladeira, mas com uma arrumação bizarra. Falava sobre travecos brasileiros, Serra Pelada, ópio e heroína, Gabriel Garcia Marques, fusão a frio, tudo ao mesmo tempo agora.

 A partir da Frigidaire, Ranxerox então toda desenhada por Liberatore, transforma-se em um puta sucesso e começa a ser distribuída no mundo inteiro. No Brasil só chegou 1988 pela revista Animale. E o que me chamou atenção por comprar, devorar o gibi, e ter comentado sobre ele em nossa rádio foi que além do incrível personagem que a Itália tem e que poucos conhecem nessa mesma época e com essas mesmas pessoas, nasciam coisas que por sinal aqui gostamos muito.

 Primeiro os caras tinham uma rádio, pirata claro, que começaram a transmitir em fevereiro de 1976 com um transmissor militar, chamada de “Alice”. Tocavam de Patti Smith à Beethoven, davam lições de ioga, declamavam poesias de amor, conversas eróticas e provocações políticas. Anunciavam o local dos encontros estudantis e sempre foram os primeiros a noticiar as mortes de estudantes que aconteciam trazendo mais revolta da opinião pública ouvinte. Uma contra cultura nascia na Itália usando outros artifícios para combater o governo.

Naquela época também nasce os “falsi”, movimento que hoje pode se chamar de TP ou terrorismo poético. Um dos golpes, era trocar a primeira página de jornais de grande circulação no país com notícias sempre chocantes para assustar a classe média que ainda apoiava o governo. E em 1983, a Frigidaire fez a sua tacada mestra: criou uma edição falsa do Estrela Vermelha, jornal das forças armadas soviéticas. Distribuíram para o exército russo no Afeganistão, que na época invadido pelos russos e além de ter na capa um soldado russo quebrando sua metralhadora Kalishinikov, fazia uma mea culpa sobre a guerra, convocando toda a tropa para voltar para casa.

Para quem é fã de histórias em quadrinhos minha dica é que procurem saber mais sobre esses caras, principalmente Liberatore e o Tamburini. Eles eram mestres!  

 
Bom, e sobre o Ranxerox o que posso dizer é que ele é fã do Zappa, Joy Division e de cola, já que é a única coisa que faz efeito em seu cérebro de robô. Tem como inimigos mortais a polícia e uma velha beata, leitora da revista do partido comunista italiano. É muito violento, com várias referências a músicos e políticos. A fase posterior a Canibale, com os desenhos do Liberatore é a mais louca que acho. Desenhos, sangue com uma luz que parece que os quadrinnhos estão dentro de uma geladeira sempre.

 “Os quadrinhos sendo ainda a linguagem artística mais desprezada pela Alta Cultura, é objeto de carinho e interesse especial por parte dos baderneiros”. Vicenzo Sparagna  

Loja Virtual Conrad: http://www.lojaconrad.com.br/lojas/CONRAD/__Detalhes.cfm?adultos=1&produto=RQ16407

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3 Comments + Add Comment

  • To vendo que alguém transcreveu o ‘prefácio’ do Ranxerox aqui no blog hein. Hahaha.

    Brincadeiras à parte, gostei de terem usado um gancho como o “dia das histórias em quadrinho”, para explorar uma HQ tão densa como Ranxerox.

    Confesso que devorei (assim como o autor do post) essa HQ há apenas um mês e meio, e também fiquei impressionado com toda a história por trás disso tudo.

    Quanto ao post, a minha única bronca foi não terem mencionado a Lubna (vamos lá, sem ela Ranxerox não existiria). Mas curti o post em geral.

    Abs!

    • LUBNA !!!!

      Boa,,, acho que ela merece um post também. Essa semana faço um post sobre ela
      Abraço e até breve

  • I agree this is a mighty thoughtfully written article, thank you for sharing it.

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