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2011
O Mistério dos Bigodes
O MISTÉRIO DOS BIGODES
Sempre admirei homens de bigode. Não por achar bonito (muito pelo contrário!), mas por achar corajoso. Sempre me intrigou pensar nas razões que levam um sujeito a deixar nascer um tufo de pelos bem no meio do rosto, e que, a princípio, não significa ou exprime nada, ao contrário de sua vizinha barba, que, dada a dimensão e o contexto, pode traduzir trangressão ou uma insubordinação qualquer.
Sim, há bigodes célebres, claro que há. Carlitos, Hitler, Freddie Mercury carregaram alguns deles, em todos os casos como a representação de uma caricatura, voluntariamente ou não. O do personagem imortal de Chaplin era uma grande e acertada composição visual, quase um deboche. Era em parte responsável pela imensa empatia do personagem com o público, tanto quanto seus olhos tristes. O do líder nazista parecia uma caricatura de poder e autoridade, algo a conferir austeridade e força a figura tão franzina e miúda, e o de Mercury soava como escracho da macheza, homossexual célebre e despudorado que era. Outra façanha do bigode que me intriga é a sua capacidade de, digamos, “resistência cultural”. Sim, porque vão eras e vêm eras, modas mudam como o clima, e o bigode permanece lá, a adornar rostos de jovens e velhos, gays e heteros, brancos e pretos.
Há não muito tempo, um grupo auto-nomeado “Os Bigodistas” assumiu a autoria de atos vândalos contra cartazes e out-doors espalhados por São Paulo. O papa João Paulo II marcava presença no outdoor da revista, tascavam-lhe um bigode; Gisele Bundchen anunciava sandálias coloridas em cartazes, metiam-lhe outro bigode. Era impossível topar com tais cenas sem soltar o riso mais desbragado, um riso quase de vingança. Sim, vingança à publicidade, ao consumo, ao poder, à nossa torpe era de celebridades… Por que bigode e não barba ou tranças? Porque o bigode tornava os personagens em questão ridículos, apenas por isso.
É bem verdade (justiça seja feita!) que os bigodes, quando conjugados a barbas ou cavanhaques, tornam-se um pouco mais “digeríveis” (digerir um bigode, que terrível sugestão!…), mas mesmo neste caso não são lá muito fáceis de engolir (ops!).
Já pensei em usar bigode, a título de experiência, mas nunca galguei tamanho desprendimento. Enquanto não ganho coragem suficiente, ocupo-me em imaginar que razões levam cidadãos a plantarem pelos no lugar mais inimaginável do seu corpo, entre o nariz e os lábios, quase exatamente no meio da cara. Parecem estar tentando dizer ou ocultar alguma coisa. Só não sei o quê.
Zeca Baleiro
Fonte: BALEIRO, Zeca. O Mistério dos Bigodes. In: ______. Bala na agulha: reflexões de boteco, pasteis de memória e outras fituras. São Paulo: Ponto de Bala, 2010. p.82-83.
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